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caneta-lema

"A persistência é a virtude da tenacidade; é, por outro lado, a severa coragem para enfrentar dificuldades e resistir ao desânimo diante dos contratempos."

Alcy Gomes Fonseca entrou na Câmara dos Deputados em 1950 e encerrou sua carreira em 1968, como Diretor do DETAQ.

Participou da mudança do Congresso Nacional do Rio de Janeiro para Brasília.

No mês passado, ele encaminhou para o DETAQ este lindo texto, escrito, segundo ele, há mais de 60 anos.

Com carinho, para nossa reflexão, seguem suas palavras:

 “Arrumando meus papéis, não digo velhos, mas antigos, encontrei este artigo que escrevi há mais de sessenta anos  (eu entrei para a Câmara em 50).  Gostaria de prestar uma homenagem à Taquigrafia de hoje, se me permite matar esta saudade... 

Um abraço do ex-Diretor Alcy

 

TAQUIGRAFIA E LINGUAGEM

De Alcy Gomes da Fonseca

No Princípio, era mais simples. Com alguns sons, pouco mais do que ruídos, deitava-se falação. Escrita, iam-na fazendo com arranjos de folhas ou galhos, arrumação de pedras, ossos, coisas à mão; riscos na terra, sulcos em rocha ou em árvores. O que faltasse para o entendimento completava-se com a mímica, que, seguida de grunhidos, constituía a ênfase suprema da linguagem de então. Depois, inexoravelmente, veio toda a complicação, ou o desenvolvimento natural. O tatibitate dos nossos irmãos primevos evoluiu. As tribos nômades, cansadas de suas andanças, fixaram-se. Dos agrupamentos, surgiram as civilizações, desenvolveram-se. Esboçaram-se idiomas. Criaram-se escritas. Falas se ajustaram, compuseram-se dentro de regras. Umas se misturaram, outras seguiram independentes. Hoje, somos nós. Cada qual fala a sua. Nesta altura, desdobra- se o nosso tema. Escrita e fala nem sempre se puderam entrosar, na história dos homens, para o objetivo maior: a perenidade das grandes alocuções. Contaram-se e recontaram-se mil contos de reis e rainhas, de guerras e posses. Mas nunca se fixou inteira, fiel, a palavra expoente, o discurso, a idéia do fato no tempo histórico. O verbo exato, genuíno, do líder, do sábio, sem registro verídico, perdeu-se no espaço. Colheram-se as idéias. Já é alguma coisa, embora não seja pacífico que todo catador de rosas complete seu labor sem machucar as pétalas. Como seria, ipsis verbis, um discurso de Jesus? De que forma se armariam os arcabouços lingüísticos, estilísticos dos sermões magnetizantes, no Monte das Oliveiras? Como a singeleza divina dominaria o contexto e evitaria os lugares-comuns de quase toda a pregação? E, no Templo, a expulsão dos mercadores? Palavra por palavra, como teria sido a invectiva? Moisés e Salomão conheciam por certo a técnica da palavra, o poder de persuasão de um discurso bem recitado. Aliada essa noção, mais inteligência e cultura, à predestinação, comporiam formosos discursos? Curtos, incisivos? Longos, enfadonhos? (Porque cultura e inteligência nem sempre dão retórica. É pena, mas não dão). Períodos bem estruturados? Palavras vazias, chãs, mas intencionalmente procuradas para impressionar a massa ignara? Ou termos simples, mas exatos, sem rodeios, francos, escutáveis por todos os ouvidos? O texto, falta o texto! Temos a história, ou a lenda, passada oralmente e composta a posteriori. Mas a tradução exata, o conteúdo do pensamento, tudo aquilo contido nos entrecortados da oratória, não havia como perpetuar. Em Roma, dentre muitos maus, alguns bons, Cícero sobressaía como orador de pura dialética. Encantado com os gorjeios do mestre, seu escravo concebeu um meio de gravá-los per omnia secula seculorum. Disse Amem, e estava criada a Taquigrafia. Poderia ter vindo até nós apenas a fama de Cícero como tribuno, mas recebemos também, graças a uma nova linguagem escrita, a autoridade lingüística de Cícero.

Hoje, século XX, Cíceros e respectivos escravos continuam sua faina. A escrita rápida, veloz como a fala, essa evoluiu daqueles tempos para cá. Aperfeiçoaram-se os métodos de taquigrafia e se apuraram de tal maneira os técnicos que não há improviso “inapanhável”. Há oradores velocíssimos. Poucos. Concatenar idéias, armar raciocínios e, afinal, pronunciar corretamente os fonemas correspondentes, numa velocidade acima de 140 palavras por minuto – em média três fonemas por palavra – é tarefa difícil. Mas há também bons lápis, seguras munhecas, capazes de não perder o “trem”. Pode um ou outro orador chegar a velocidade maior, e já temos contado 150, 160, quase 170. Mas isso é raríssimo. Só se alcança tal índice, na embalagem do entusiasmo, por alguns minutos. Nossa aparelhagem física não nos permite articulação, acelerada assim, por muito tempo. Fazem-no talvez os narradores de futebol, ou de corrida de cavalos, porque, além da habilidade digamos fonatória que lhes confere a tarimba, as palavras a dizer são quase sempre as mesmas e os mesmos fatos a narrar. Praticamente deixa de haver improviso e não se faz necessário um esforço conjugado da mente para encadear novas idéias. Na língua portuguesa, o discurso improvisado mantem-se normalmente entre 120 e 130 palavras por minuto. Falar a mais de 140 já é excesso de velocidade que se pune com perda de salivação, garganta seca, rouquidão, falta de ar, tonturas. Isso advém ao fim de dez minutos, se não houver nem água, nem apartes... Mas os Cíceros, de modo geral, falam moderadamente; querem falar, ser ouvidos e ser escritos. Ainda porque, em disparada louca, há risco de atropelar a sintaxe.

O taquígrafo parlamentar funciona a vida toda como um osciloscópio, a medir, a grafar sons que ouve, dominado pela tensão maior ou menor que recebe, como por indução elétrica, dos debates. O lápis é o ponteiro que vai riscando no caderno o “gráfico” a ser posteriormente traduzido e até interpretado. Taquigrafia é profissão que nunca se domina; daí a personalidade intranqüila, irritadiça do taquígrafo, o seu ar de eterna afobação no trabalho. Ao fim de vinte, trinta anos, a segurança do apanhamento pode ser comprometida por qualquer pequena emoção. Nunca se sabe que esforço exigirá cada novo discurso. Quando se ouve mal uma palavra, porque alguém falou perto ou porque foi mal pronunciada, perdem-se três, ou não se lerão cinco. E quando há falta de sentido? Ai entra em prova a capacidade profissional do apanhador: encontrar os termos adequados, a expressão justa, pôr ordem nos elementos estruturais da oração, fechar períodos, aclarar idéias. Todo um trabalho sutil, que devem manter-se rigorosamente dentro do estilo do orador.  Absoluta concentração enquanto escreve (desde que haja no quê) – eis o “macete” da profissão. Obtida a automatização do traçado – que se adquire após bem uns cinco anos de prática – voltada a atenção inteiramente para o que diz o orador e mais alguns requisitos, que não deixam de incluir boas doses de leitura, certa cultura, não há orador invencível. Taquigrafia, em resumo resumidíssimo, é mais ou menos isto: com verdadeira usura de sinais, o registro de fonemas. Representam-se apenas os fonemas. Por isso a falta de sentido lógico das frases, pode, mais tarde, dificultar a leitura. Do discurso que ouve, o taquígrafo como que decanta mentalmente as palavras, extrai delas, e registra, os fonemas, que serão, no corolário das etapas do "apanhamento", traduzidos em letra de forma. Pensam que é fácil? Vejam o serviço. O orador empertiga-se diante do microfone. Um leve pigarro é a chave de ignição do aparelho fonador. O fole dos pulmões expele a coluna de ar traquéia acima; nas membranas da laringe, nas cordas vocais e comprimido pela fenda da epiglote, o ar se faz som; na faringe, na boca e nas fossas nasais, dá-se o retoque final, e o sopro se transforma em som. Tudo que a coluna de ar produziu, ou com saída livre ou com parcial obstrução, quer dos lábios, como dos dentes, quer da língua como do véu palatino, com a campainha (a úvula), em auxílio do “céu da boca”, como também das bochechas, tudo deve ser escutado, compreendido e de pronto anotado. Grafa-se, mais, o nome daquele que impulsiona o aparelho fonador, e ainda os de todos os donos de aparelho que na hora apartearam – e não são poucos. Junte-se a isso a agitação ambiente, mais o excesso de trabalho, mais, quanta vez, a incompreensão do nosso mister... e veremos que o “osciloscópio” tem de ser nervozinho mesmo.

Mas, aqui, o nosso mote é a linguagem. O improviso é, sabidamente, uma peça, não diremos incorreta, mas sem retoques. O orador popular, o debatedor, o protagonista de qualquer debate – sobretudo numa casa do povo – não pode preocupar-se demasiado com a forma. Os pontos nos “ii”, as vírgulas, os parágrafos; as repetições, às vezes usadas para ordenação das idéias; certas concordâncias mesmo, que não poderiam ser acertadas sem recomeçar o período já em meio do caminho; isso é tarefa que, no Parlamento, incumbe ao taquígrafo, sem desmerecimento qualquer do orador. É verdade que há os rouxinóis, mas esses cantam para ser admirados, e nessa hora a fúria dos debates senta-se quieta nas poltronas.

Então, com a confiança em si depositada, com a incumbência (que lhe é, no Parlamento, até delegada) de penetrar de tal forma no estilo do orador que ele toma como suas as correções acaso feitas; por tudo isso, o taquígrafo se faz vínculo do casamento da linguagem falada com a linguagem escrita, para assegurar a metamorfose, ao inverso, dos discursos improvisados: do borboletear efêmero das palavras para o casulo dos arquivos – às vezes câmaras de repouso interpostas no caminho para a eternidade.”

​​Contribuição: DETAQ

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